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O que Succession ensina sobre sucessão patrimonial (e por que esse não é um tema restrito a grandes fortunas)

Entre helicópteros, iates e disputas de ego, a série da HBO mostra que o maior inimigo de um legado não é a concorrência, mas a falta de um plano claro.

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Por Redação Feito.Itaú em
Reprodução do trailer da série Succession

Na trama exibida pela HBO Max, o patriarca Logan Roy construiu a Waystar Royco, um conglomerado global de mídia e entretenimento avaliado em dezenas de bilhões de dólares. Quando sua saúde começa a se deteriorar, seus filhos passam a disputar influência, poder e a chance de assumir o comando da empresa.

Mas por trás das negociações agressivas, das alianças improváveis e das reviravoltas corporativas, existe um problema muito mais real do que parece: a ausência de um planejamento sucessório claro.

A série exagera no tamanho das fortunas, mas o conflito central atravessa famílias de todos os tamanhos de patrimônio.

Afinal, quando não existe organização prévia sobre como bens e responsabilidades serão transferidos, conflitos emocionais e financeiros podem surgir rapidamente.

Fora da ficção, o planejamento sucessório existe justamente para evitar que momentos delicados se transformem em disputas ainda maiores.

O verdadeiro drama da herança: quando ninguém planeja

Em Succession, a disputa pelo controle da Waystar Royco se intensifica porque Logan Roy nunca estabelece um plano sucessório transparente. Cada filho acredita ser o sucessor natural, aliados se formam e desaparecem rapidamente e decisões estratégicas acabam sendo tomadas em meio a pressões emocionais.

No entanto, se engana quem pensa que esse tipo de situação acontece apenas em impérios corporativos.

Na vida real, a ausência de planejamento sucessório costuma gerar três consequências principais:

  • Conflitos familiares sobre divisão de bens;
  • Custos elevados com inventário;
  • Insegurança financeira para os herdeiros.

Na live sobre Planejamento Sucessório, apresentada no canal do Itaú no Youtube, os especialistas apontam que um inventário pode consumir entre 15% e 20% do valor total do patrimônio, considerando honorários advocatícios, impostos e custos cartoriais.

Ou seja, além do desgaste emocional, existe um impacto financeiro relevante quando tudo precisa ser resolvido apenas depois.

Planejar sucessão é sobre organização

Existe um equívoco comum: acreditar que planejamento sucessório é algo exclusivo para famílias muito ricas.

Na prática, qualquer pessoa que possua patrimônio, seja ele um imóvel, investimentos ou um negócio, pode se beneficiar de algum nível de organização.

O planejamento sucessório consiste justamente em definir, com antecedência, como os bens serão transferidos para herdeiros ou beneficiários, evitando incertezas no futuro.

Existem diferentes instrumentos que ajudam a estruturar esse processo. Cada um deles traz vantagens e pontos de atenção, quase como se fossem os “bônus” e os “dramas” de cada escolha.

Os instrumentos da sucessão: os ganhos e as contrapartidas de cada escolha

Se por um lado a série Succession mostra o que acontece quando ninguém organiza o legado, por outro, o planejamento patrimonial funciona justamente como o roteiro que evita esse tipo de conflito.

Por isso, na prática, existem diferentes ferramentas para organizar a transferência de patrimônio.

Conheça algumas das principais, com seus respectivos benefícios e as contrapartidas a serem consideradas em cada estratégia.

Instrumento

Benefício principal

Ponto de atenção

Quando faz sentido?

Previdência VGBL

Liquidez e agilidade: Recursos liberados em até 30 dias, sem inventário e sem incidência do ITCMD, conforme regra geral. O titular escolhe os beneficiários.

Planejamento dos aportes: Valores muito elevados e próximos ao falecimento podem ser objeto de questionamento pelo fisco.

Para garantir uma reserva financeira imediata à família, cobrindo custos do inventário (advogados, impostos) sem precisar aguardar a liberação de outros bens.

Previdência PGBL

Eficiência fiscal na fase de acúmulo: Permite a dedução de até 12% da renda tributável anual, para quem opta pela declaração completa do IR. O imposto “não pago” é postergado e redirecionado para o investimento.

Tributação no resgate: O Imposto de Renda incide sobre o montante total acumulado (principal + rendimentos), o que pode torná-la menos eficiente como ferramenta puramente sucessória.

Para quem está em fase de acumulação de patrimônio, com alta renda tributável, e deseja otimizar o pagamento de impostos enquanto investe para o longo prazo.

Doação em vida

Antecipação e controle: Permite transferir bens em vida, com a possibilidade de incluir cláusulas como usufruto, garantindo ao doador a continuidade do uso ou da renda do bem.

Irreversibilidade: Após a doação, o bem deixa de pertencer ao doador. É uma decisão definitiva que exige segurança sobre o destino do patrimônio.

Para quem já tem convicção sobre o destino de imóveis ou participações societárias e quer poupar os herdeiros da burocracia e dos custos futuros do inventário.

Testamento

Liberdade para dispor da parte disponível: Permite destinar até 50% do patrimônio (parte disponível) a pessoas ou instituições específicas, incluindo amigos, e estabelecer regras claras, como a proteção de filhos menores.

Não substitui o inventário: O testamento é uma declaração de vontade que será cumprida dentro do processo de inventário, que ainda precisará ser aberto, com todos os seus custos e prazos.

Para quem deseja beneficiar pessoas além dos herdeiros necessários, homenagear instituições ou estabelecer regras personalizadas sobre a divisão de bens específicos.

Holding patrimonial

Gestão centralizada e sucessão simplificada: Reúne bens (como imóveis) em uma pessoa jurídica. A sucessão ocorre pela simples transferência das quotas, evitando o inventário para cada bem individualmente.

Estrutura e custos de manutenção: Exige contabilidade, planejamento jurídico contínuo e arcar com custos de manutenção da empresa, o que só se justifica para um patrimônio de maior complexidade.

Para famílias com patrimônio imobiliário diversificado, múltiplos imóveis ou participações em empresas, que buscam profissionalização da gestão e um planejamento sucessório mais estruturado.

Seguro de vida

Proteção financeira imediata: Oferece liquidez rápida aos beneficiários, sem inventário e sem incidência do ITCMD, conforme regra geral.

Custo como despesa de proteção: Em seguros puros, o valor pago (prêmio) não é resgatável nem se acumula como investimento. É um custo pela proteção oferecida.

Para garantir a manutenção do padrão de vida da família, quitar dívidas (como financiamentos) ou assegurar recursos imediatos em caso de imprevisto com o provedor.

Planejamento sucessório também protege empresas

Quando o patrimônio envolve negócios familiares, a organização sucessória se torna ainda mais estratégica.

No Brasil, milhões de empresas nascem da iniciativa de empreendedores que concentram decisões importantes na figura do fundador.

Sem planejamento, a saída inesperada desse líder pode gerar impactos relevantes na continuidade da operação.

Esse cenário ganha ainda mais importância diante do crescimento do empreendedorismo no país.

Dados da Receita Federal compilados pelo Sebrae mostram que mais de 1,033 milhão de pequenos negócios foram abertos no Brasil apenas no primeiro bimestre de 2026, um recorde histórico e 3% acima do registrado no mesmo período de 2025.

Essas empresas representam 97,3% de todas as novas pessoas jurídicas formalizadas no país, sendo a maioria formada por microempreendedores individuais (MEI), responsáveis por cerca de 79,5% das aberturas.

Na prática, isso significa que milhões de novos negócios estão sendo criados, muitos deles estruturados em torno da visão e da liderança direta de seus fundadores.

Sem um plano sucessório claro, mudanças inesperadas na liderança podem gerar instabilidade, afetando tanto a continuidade da empresa quanto o patrimônio construído ao longo do tempo.

Por isso, especialistas apontam que um plano de sucessão empresarial costuma envolver etapas como:

  • identificação de posições-chave;
  • mapeamento de talentos internos;
  • desenvolvimento de futuros líderes;
  • acompanhamento contínuo da transição.

Esse processo ajuda a garantir que a empresa continue operando de forma estável, mesmo diante de mudanças inevitáveis ao longo do tempo.

O que Succession mostra e a vida real confirma

Ao longo das temporadas, Succession revela que o verdadeiro conflito não nasce do dinheiro em si, mas da falta de clareza sobre o futuro.  Quando as regras não estão definidas, o patrimônio deixa de ser um legado e passa a ser motivo de disputa.

Fora da ficção, o planejamento sucessório cumpre exatamente o papel oposto: organizar bens, proteger herdeiros e garantir que o patrimônio construído ao longo da vida cumpra seu propósito.

Se os Roy tivessem organizado esse processo antes, talvez a série tivesse sido muito menos dramática, e provavelmente bem mais curta.

Assim, para quem está do lado de fora da televisão, a grande lição é planejar hoje é uma das formas mais eficazes de proteger o amanhã.

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